domingo, 8 de março de 2009

MULHER...MULHER...MULHER


Tudo me cativa na mulher. Mulher pra mim não tem idade, etnia, estatura, posição social, estado civil. São simplesmente mulheres. Adoro seus cheiros, hábitos, hálitos, perfumes, olhares, a pele de seus corpos, a respiração. Adoro seus mistérios. Sim, toda mulher é um mistério a ser desvendado. Cheia de enigmas, mapas, charadas, humores e surpresas, algumas se tornam indecifráveis.
Uma boa parte da minha vida, minhas melhores companhias têm sido as mulheres, sejam como amantes, sejam como amigas, alicerce, confidentes, ouvintes e, às vezes, tudo junto. Penetrei o coração de muitas, assim como em seus corpos. Varei noites filosofando. Fiz sambas e poemas de amor. Velei seus sonos em contemplação. Dei até conselhos e não as conheço.
A mulher é feita de uma substância diferente, parece frágil e tem a resistência que nós não temos, sua firmeza é muito mais firme e não bruta. Sua matéria tem propriedades não especificadas. Ou será sua alma?
Levamos séculos para entender a inteligência emocional, coisa que as mulheres sempre demonstraram e, sobretudo, exercitaram.
Tudo me cativa na mulher, mas já que não posso desvendá-la, prefiro amá-la, vou curtindo seu sorriso, suas curvas, sua presença, carícias, sobriedade, chiliques, seu poder de nos amedrontar, mesmo as indecisas. Sua capacidade de seduzir e nos reduzir a cavalos. Pena que, muitas vezes, cavalos monogâmicos...
Em meio a tudo isso, desfaço-me de todas as metáforas para dizer literalmente: eu não vivo sem você.
No fundo, acho que mulher tem muito de Deus. Um ser envolto de questões sem respostas, mas que a gente ama e não passa sem sua presença em nossas vidas.

Que seus dias sejam todos!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

QUANDO BATE UMA SAUDADE!




















Há anos que não conseguia sentir saudades de um carnaval. Desde que me entendo por carnavalesco, só me abstive de participar do carnaval num ano em que um amigo querido, do fim da adolescência, faleceu e eu mais seis amigos pactuamos que não brincaríamos naquele ano. Fomos pra Ilha de Vera Cruz. Eu com o coração dividido entre a palavra empenhada e o desejo de brincar, lembro-me que quando não aguentei mais, os convenci a retornar e ainda aproveitei o que me foi possível daquele “último dia”. Vale lembrar que até meados dos anos 90, o carnaval acabava na terça-feira, mais tardar às seis horas da matina da quarta quando as igrejas começam a badalar os seus sinos anunciando a Quaresma e os trios da Praça Castro Alves batiam em retirada. Naquele tempo éramos todos, pelo menos os carnavalescos, católicos praticantes ou não, mas respeitávamos os ditames da igreja católica. Isto me lembrou um fato interessante da minha infância, única vez em que apanhei da minha avó materna, quando numa manhã de quarta-feira de Cinzas, eu insistia em usar uma máscara de papelão, em total desrespeito aos valores de uma avó amorosa e que me enchia de vontades, mas que não admitia que ninguém tripudiasse sua crença. Não deu outra: caí no "sarrafo".

Ao longo deste tempo, eu assisti o nascimento dos blocos afro, a decadência dos blocos de índios, o surgimento do macacão e depois do abadá, o fim da mortalha e do Bloco do Jacu, para mim a manifestação mais legítima que existiu no carnaval da minha mocidade: “Ele não tem corda por que tem coração, cabe todo mundo pra brincar no seu cordão (...)”. Ah! Jacu...

Em 1992, não havia ainda carnaval na Barra. Naquele domingo, eu e mais alguns amigos armamos uma brincadeira e ficamos subindo e descendo do Farol para o Cristo e vice-versa, cantando sambas e marchinhas antigas e arrastando o pessoal que fez a opção de não ir ao centro da cidade. Neste mesmo dia, apareceu um fusca velho com umas caixas de som em cima e uns caras com uns timbaus tocando e cantando. Como não tínhamos como competir, nós ficamos alternando, quando os caras subiam a gente descia, até que ficou insustentável e escolhemos um bar numa rua entre a Marques de Leão e Afonso Celso e ficamos brincando até cansarmos. No ano seguinte não saímos mais, pois estava instituído o carnaval da Barra. Quanto aos caras dos timbaus, já começavam a ganhar notoriedade, transformando-se num movimento musical que viria a ganhar o Brasil e posteriormente o mundo.

No meado dos anos 90, começaram os primeiros sinais de que o carnaval espontâneo não mais teria vez. Os empresários descobriram o veio comercial desta manifestação, as emissoras de televisão idem e começaram a forjar seus ícones, privilegiados e milionários (são eles que ganham muito para mandar dar a volta no trio, mandar bater palminhas, sair do chão e beijar na boca). Começava o investimento financeiro e segregador. Os blocos passaram a ser parte de um negócio onde o folião local começou a ser desprezado, perdendo seu espaço em favor dos que vinham de outros centros mais afortunados ou trazendo moeda estrangeira. Os trios elétricos, nascidos para o povo ir atrás, foram cercados de corda e só passaria a desfrutá-los quem pagasse caro por um pedaço de pano chamado ironicamente de “fantasia”. Assisti a blocos nascidos na cidade baixa, criado por jovens de classe média baixa, segregando e selecionando pessoas pela sua posição social e aparência. Passamos de foliões a cordeiros. Não achando suficiente, criaram os camarotes espremendo o que sobrou da população nativa entre a corda e estes suntuosos estabelecimentos de lazer. O povo levado a reagir a esta violência passou a ser “porrado” pela polícia, que como sempre está a serviço dos poderosos. Tudo em nome do espetáculo!

Vocês haverão de dizer que existem os blocos afro, sim é verdade. Estes desfilam quando não há mais holofotes, depois que as estrelas já passaram saudando os governantes, anunciantes e representantes da mídia. Depois que os trios potentes, estridentes, luxuosos em recursos tecnológicos, já desfilou aquilo que convém ser mostrado... Tudo asséptico, esbranquiçado e politicamente correto. E eu desgostando do carnaval...

Mas iniciei este texto afirmando que este ano vou sentir saudade do carnaval. Vou desfiar algumas razões. Primeiro, na quarta-feira a Barra estava tomada de bandinhas de grupos espontâneos brincando e promovendo o verdadeiro carnaval folião, onde pessoas dispostas a brincar e festejar se divertiam na mais completa falta de padronização, sem horário, sem hits, nem grito de ordem e ninguém almejando auferir lucros da alegria alheia. Até o grupo cuja ideia era só concentrar, saiu e ganhou as ruas. E lá fui eu com eles. Pessoas de todas as idades e etnias divertindo-se, nenhuma confusão. Na quinta-feira, fui ver o bloco Os Mascarados e me surpreendi com a riqueza das fantasias, descontração, alegria e recuperação da criatividade dos foliões. A corda não comportou tanta inventividade e tenho certeza que no próximo ano não haverá corda, rememorando os bons tempos do Jacu, mencionado antes. Fiquei contagiado pela felicidade das pessoas e a alegria da cantora, que embora midiática, é quem tem a cara mais autêntica do povo baiano.

Para a sexta-feira, eu reservo um parágrafo especial. Em 2000, fui apresentado a O Povo Pediu por um amigo-irmão, naquele ano acompanhei à distância e só no ano seguinte passei a integrar o grupo. Levei meu cavaquinho e fui muito bem recebido. O Povo Pediu tinha tudo que eu entendia de ser folião, estavam todos ali por querer estar, com exceção da camisa nada mais era padronizado, tudo transcorria dentro de uma anarquia positiva e benéfica. Senti-me folião outra vez. Desde então, este passou a ser o meu carnaval. Fiz amigos maravilhosos. Construí laços muito saudáveis. Recebi gestos de afetos imensuráveis. Também divergimos, trocamos farpas, reatamos, mas sempre juntos partilhando do ideal de fazer o carnaval que sai dentro das pessoas. Há dois anos abolimos as camisas padronizadas e optamos em escolher uma padronagem de tecido a partir do qual cada um faz a fantasia ao seu bel prazer como, os mais antigos foliões contam, era no início. Não posso afirmar que foi isso, mas o certo é que se estabeleceu uma nova sinergia que culminou neste ano com um dos nossos melhores carnavais. Cantamos, sorrimos, abraçamos, cultuamos o Deus da folia. Nem a chuva, nem o apagão promovido no Pelourinho a partir de uma hora da manhã, certamente para economizar energia elétrica para os grandes circuitos, ofuscou nosso brilho, nossa felicidade e nossa alegria. Mostramos que ainda é possível viver os grandes carnavais.
Após esta culminância da festa de Momo, ainda tive o privilégio de, no domingo, seguir o trio alternativo da Secretaria da Cultura trazendo três excelentes cantoras, Cláudia Cunha, Manuela Rodrigues e Sandra Simões que desfilaram um repertório muito rico de letras, melodias e ideias com suas belas vozes. Seguindo este trio, tinham umas quinze pessoas, todas felizes e sabendo por que estavam ali e certamente sentindo-se privilegiadas com eu. Não lembro quando segui um trio por toda a extensão do circuito carnavalesco. Surpreendentemente, duas garotas de aproximadamente dezoito anos, que pareciam não ser daqui da cidade, pois não tinha o jeito pasteurizado dos cosmopolitas, seguiram também até o fim e sorriam como sem entender o que estavam fazendo ali, mas achando tudo muito bom. Um senhor solitário e simpático de uns setenta anos sambava ao som de “comigo ninguém pode” com se celebrasse a existência. Em certo ponto do percurso, me ofereceu uma cerveja e disse: Carnaval é isso! Parecia que todos estavam movidos por um mesmo sentimento e cumplicidade, as cantoras, os músicos, a produtora, a fotógrafa, nós foliões. Recebi até convite para subir ao trio, mas eu queria mesmo era me sentir no chão da minha cidade. Cidadão-folião. Fui até a dispersão... Meu carnaval estava completo.
Era o reviver de um amor antigo cujo prazer do beijo permanecera inalterado.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

PELOURINHO, MENTIRAS DOS MOMOS

Pelourinho, Mentiras dos Momos
A proclamada diversificação cultural do carnaval de Salvador faria sentido se tivesse sido dada a todas as vertentes da nossa música a mesma oportunidade de divulgação, o mesmo trato de respeito e investimento. O sabido descaso com que a atual administração tem tratado o Pelourinho (ironicamente elevado agora à condição de patrimônio imaterial...), estendeu-se de forma triste e trágica ao carnaval de rua que ali se vinha realizando com sucesso na última década... Era o Centro Histórico o refúgio de foliões dos anos 70, início dos 80, talvez, que, como eu, assistiram com tristeza a descaracterização de tudo que aprenderam a chamar de carnaval... Haviam deixado este consolo pra gente... ali era possível pular carnaval, ouvir carnaval sem o desconforto dos gritos proferidos pelos egos de cada dono de trio, numa manifestação inversamente contrária a tudo que me pareceu ter inspirado a criação de Dodô E Osmar. No Pelourinho, podíamos assistir sem camarotes, o desfile de carnavalescos de verdade, criativos nas suas fantasias, umas diferentes das outras, sem a monotonia visual dos abadás feitos em série e que apenas igualizam e/ou identificam gente de uma classe privilegiada que pode pagar pra ocupar o centro das ruas... No Pelourinho, o som nos acordava a alma carnavalesca que repousara à esta espera os outros 361 dias do ano... Som de carnaval legítimo e não estou saudosisticamente me referindo às marchinhas de outrora, mas, a toda “atualidade” do quanto Caetano e Morais construíram de belo para As nossas festas, para o “nosso” trio. A Praça Castro Alves já não era mais nossa, tínhamos, porém, as ruas do Pelô. E lá nos reencontrávamos, nos re-identificávamos, nos regozijávamos pelo que nos tinha restado de real, um oásis dentro do caos em que se transformara o carnaval da Bahia pros da minha geração de paladar musical mais apurado, ouvidos mais sensíveis, talvez, e menores ambições mercantilistas...
Reencontrei um Pelourinho destroçado, relegado ao abandono; um Pelourinho deserto dos foliões de outrora; raras bandinhas tristes na sua aparente decadência , desfilando pra meia dúzia de pessoas daquela área da cidade que talvez não pudessem ter saído dali... A internet não nos fornece a programação do Pelô com a clareza necessária. Fala-se da Praça Municipal, mas omite-se o que acontecerá nas praças internas, reais cenários dos grandes ou melhores shows. Pouca ou quase nenhuma divulgação... informações equívocas quanto à hora das apresentações... Lá dentro tudo muito descuidado, afinal ali voltou a ter tratamento de senzala, e a atual Casa Grande localiza-se no circuito Barra-Ondina... com direito a litros de água gastos para refrescar os foliões-vips e à visita diária da Limpurb. Muito triste, tudo isto. Pobres foliões do meu tempo, o que faremos agora? Sem nunca ter sido tão tradicionalista, louvo o feito do prefeito de Ouro Preto, impedindo que por lá chegassem os trios, bairrista que sempre fui, orgulhosa soteropolitana, envaideço-me mais do carnaval de Recife que honrou e preservou, deus sabe a que preço, as suas tradições carnavalescas... E pensando no pobre Pelourinho. Carlista que nunca fui, tenho saudade do Cabeça Branca...

Que deixem, pois de demagogia com esta de diversificação cultural no carnaval de Salvador... Acho, aliás, que num tempo em que tanto se troca o nome das coisas... e até já se pensou em transformar esta festa de 7dias em data fixa num calendário secular de respeito à quaresma (tudo em prol do mercenário espírito das elites carnavalescas) creio que devessem mesmo lhes trocar o nome... Isto já não é carnaval, mas um gigante festival de verão, com um pouco de tudo que se faz e se toca o ano todo e só um pouquinho de nada de realmente carnavalesco... No palco principal estarão sempre os mesmos... os que não tem concentração para ler, os que lhe manda beijar na boca, indiscriminadamente, numa campanha na contramão da outra da Secretaria de Saúde do Estado. No palco principal estarão só estes... e os palcos secundários desaparecerão aos poucos...como aconteceu com o Pelourinho d´agente...

Não se pode deixar de elogiar o bom trabalho de pesquisa da decoração de Euro Pires e sua equipe que contrastavam com todo o resto do tratamento dado ao local e chegavam a soar como desperdício de talento para tão pouco investimento de público. Vale também ressaltar a presença heróica de Waltinho Queiroz cantando num daqueles palcos; convém, com certeza, agradecer a beleza e a coragem do grupo “O POVO PEDIU” cantando lindamente pelos becos e em torno de uma praça do Terreiro de Jesus, onde as luzes foram apagadas antes de uma da manhã... quem sabe poupando energia para compensar o gasto do circuito dos camarotes de granfinos...

Há um tempo atrás, quando descobri todas as possibilidades que me oferecia o Centro Histórico em tempo de carnaval, amanheci com vontade de escrever uma crônica que se intitularia Obrigada, Pelourinho... e quase fiz planos de no ano seguinte me hospedar num hotel da área onde pudesse vivenciar aquele clima sob o reinado do MOMO... Volvidos 4 anos, recolho-me tristemente a condição dos sem-terra, sem-teto e sem chão no carnaval da Bahia... Mas sinto que ainda tenho tribo, que ainda tenho bloco... e graças a Um HÁBEAS COPOS... porque O POVO PEDIU, posso ainda voltar, CHEGANDO BONITO... porque PARAOANO, com certeza, SAI MILHÓ...

Texto: Ângela Chaves, bacharela em Direito (UFBA-73), professora de Inglês e compositora de MPB
Fotos: Vera Milliotti