
Se eu tivesse escrito este texto alguns dias atrás, ele teria a mesma conotação, mas seria ilustrado por um único exemplo. É muito bom a gente se ver de fora do círculo.Vou dizer o porque. Tinha eu acabado de retornar a Salvador , vindo de Paracuru, Ceará, onde fui realizar um trabalho e passei dezoito longos dias. Digo longos, não por que fossem entediantes, mas simplesmente pelo fato de, ao me desconectar do ritmo frenético que levo aqui, comecei a me dar conta da sensação de que a vida pode ser tocada num ritmo mais lento. Em Paracuru, acordava cedo, tomava café cedo, ia trabalhar, cumpria uma jornada de oito horas, voltava a tempo de caminhar na praia, prosear com as pessoas do lugar, jantar, ir a uma lan house ler e-mails e ainda conseguia dormir cedo, por volta das 22 horas. Horário que só experimento, quando em “casa”, em caso de estar doente.
Paracuru é uma cidade linda. As pessoas detêm uma naturalidade singular. Desprovida desta malícia e falta de educação próprias de cidade grande. Só para ilustrar o que digo, cito o motorista do táxi que elegemos para nos conduzir. Ele, travava-nos por “minha joia”, sem nenhuma preocupação de ser mal interpretado, de ter sua sexualidade questionada ou discutida, muito pelo contrário, dando uma lição de consciência da importância que seu cliente tem. Ao tratar-nos assim, ele não só nos fidelizou. Mais que isso, demonstrou que nós que vivemos teorizando, treinando, fazendo workshop, na prática, não sabemos nada de qualidade e satisfação. Carregamos tantas máscara e papéis, que a gente incorpora na “civilidade”, que não nos permitimos viver o simples, o humano das relações. Quem por mais “brucutu” que seja, não quer ser tratado como uma joia ao requerer um serviço? Seja este qual for. Em Paracuru, as pessoas atendem bem por excelência, de muitos estabelecimentos que necessitei frequentar, apenas uma única vez não fui tratado com a devida deferência que merece o consumidor. Mas constatei, com o passar dos dias, que tratava-se de uma exceção.
Por falar em civilidade, Paracuru é uma cidade muito limpa. Não que o serviço de limpeza urbana seja algo de ponta. A consciência das pessoas é que é desenvolvida. Vi, lojistas varrendo a porta de sua loja, e o entorno dela, ao fim do dia, antes de fechar seu estabelecimento. As pessoas comuns varrem suas portas e recolhem o lixo, não deixando ir para a sarjeta entupir os bueiros...
Comecei o texto dizendo do quanto é bom a gente se ver de fora do círculo em que estamos inseridos. Vou tentar justificar. Há uns poucos anos adotei, como minha segunda cidade na Bahia, a cidade de Irará. Nunca achei motivos razoáveis para isso, mas me afeiçoei por esta cidade e como desenvolvi amizades , sempre que me dou conta já estou a caminho de lá.
O fato é que até conhecer Paracuru, nunca tinha me apercebido de como e por que Irará me cativou. Com exceção do mar lindo de Paracuru, Irará tem todas as qualidades desta primeira. Engraçado que eu precisei ir tão longe para me dar conta disso. A única coisa que divisa estas cidades é que a Geografia fez de uma litorânea e a outra não. Irará é uma cidade gentil com quem chega. É igualmente limpa. As pessoas são cidadãs. Como em Paracuru, nunca ouvi ninguém falando mal da sua cidade. Até a queixa que ouvi em uma é a mesma da outra: falta de emprego. Nos mais, não há queixas, se há, lavam a roupa suja dentro de casa.
Passei o São João em Irará e quando acordei no dia seguinte à festança, a cidade estava limpa a despeito de ter tido bloco na rua até próximo das 23 horas e de ter chovido muito no dia 24. Presenciei as pessoas juntando os resíduos de suas fogueiras e cuidando da parte que lhe cabia da via pública com o mesmo cuidado de quem cuida do seu quintal. As pessoas traziam um semblante leve de quem aproveitou a festa, mas a consciência de que a vida continua. Tudo tinha voltado ao normal. Os serviços, a gentileza, a simplicidade, o lugar.
Desejei que Irará, assim como Paracuru, permanecessem no atual estágio. Que não "involuíssem" querendo ser como as metrópoles. Pois estas estão humanamente falidas.
"Menina , amanhã de manhã
Quando a gente acordar quero te dizer
Que a felicidade vai desabar sobre os homens
Vai, desabar sobre os homens
Vai, desabar sobre os homens..."
(Tom Zé / Perna)

