quinta-feira, 13 de agosto de 2009

DO BIGODE E SUA DECADÊNCIA


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto..."
Ruy Barbosa



Como pode um homem de bigode tão farto não honrá-lo? Que saudade dos meus tempos de criança. Quando os compromissos eram selados por um fio de bigode. É verdade que os homens da minha infância, quando beiravam os quarenta, já eram homens sisudos, de pouco sorriso e muita austeridade, mas de ética forte, de palavra firme e moral elevada. Tinham lá seus atos secretos, não se pode negar, mas estes se resumiam aos atos amorosos. Possuíam siso, como dizia minha avó. Cabelos grisalhos eram sinal de respeito, de maturidade, sobriedade e experiência.
No Brasil existe uma instituição democrática, formada por homens e mulheres, eleitos pelo povo, que não podem ter menos que trinta e cinco anos, cuja principal função, no meu modesto entender, seria assegurar a legitimidade dos atos do Legislativo com vistas a tornar este um país melhor. Esta casa, formada por homens pressupostamente maduros, deveria analisar e validar os atos decisórios ao destino de um país. Entretanto há meses que nada se faz nesta casa a não ser viver uma lamacenta e deplorável comédia de costumes, desenrolada num tom satírico, amoral, de total decadência de valores e, com um agravante, nenhuma sutileza.
Na minha crença, de cidadão comum, honradez, seriedade, moral, caráter, não deveriam nunca ser relativizados, ou flexibilizados a depender de quem estivesse no centro das questões. Valores morais não podem estar hierarquicamente abaixo de uma legenda partidária ou do grau de influência do cidadão que ostenta determinado cargo. O que é que estamos assistindo? O que é que estamos mostrando para os jovens, uma grande maioria, de boa índole, que quer trabalhar honestamente e não tem empregos? Por que estão estes seres “especiais” e imunes acima do Bem e do Mal? Por que já não se importam com a opinião pública? Chegamos no limiar da decadência moral? Ou ainda temos mais algo para vivenciar? Quem está se importando com o cidadão-eleitor? Fizéssemos uma faxina naquela casa para apurar o mau uso do dinheiro público e quantos sobreviveriam? Perguntas que não calam.
Não gostaria de sujar meu blog, que construo com o objetivo de ser algo de entretenimento, reflexão e prazer, com assunto tão feio, tão execrável, mas não consigo assistir a tão grande afronta e permanecer isento. Somos responsáveis por este estado de coisa. Quer por ignorância, quer por omissão. A maioria destes elementos controlam os meios de comunicação e por conseguinte nossas opiniões. Se, ao menos, nós lêssemos mais e assistíssemos menos televisão, talvez tivéssemos uma chance. Mais a maioria é manipulada e continua elegendo delinquentes, pessoas de idoneidade questionável e os sequiosos de poder.
Vem aí mais um 7 de setembro. Minha proposta é de que a gente reflita e, sobretudo, repense que independência nós queremos dar a este país. Quem nós queremos no poder. Qual a nossa parcela de contribuição para varrer e aposentar estas pragas que corroem o sistema democrático e só legislam em causa própria, dos seus filhos, netos e até, pasmem, namorados de netas.
Você não acham que está na hora de dar um basta? Os antigos, que se respeitavam, muito mais que nós seres modernos, diziam: quem muito se abaixa, mostra os fundos. Acho que a sociedade brasileira, mais que isso, está se deixando violentar e achando isso normal.

sábado, 8 de agosto de 2009

DA ARTE PATERNAL


Dedico este texto a Renato Simões, Fernando Correa e Roberto Celestino, pais inspiradores.

Para mim, ser pai não é nenhum sacerdócio. Muito embora envolva alguns sacrifícios, não, necessariamente, envolve renúncias, batismos, atos divinos. Ser pai é antes de tudo um exercício de prazer. De desenvolvimento intelectual e moral no maior grau que um homem pode experimentar. De intervenção benévola no mundo.
Achei bom ser pai dos meus quando ainda eram crianças e acho melhor ainda sê-lo agora quando estão, transitoriamente, na fase mais inquietante da vida, adolescência. Fico muito grato ao universo por tê-los posto em minha vida e, principalmente, por que eles em nenhum momento cometeram o erro de cálculo de crer que viveriam melhor sem mim. Sem minhas cobranças, minhas repreensões, minha chatice e, sobretudo, minha amizade. Ao contrário, é nesta fase mais crítica que parecem mais perto. E fico muito vaidoso disso.
Este dia dos pais é o meu primeiro sem meu pai, que fez a passagem deste plano há três meses. Meu pai, infelizmente, não descobriu o valor deste ofício. Bom operário. Homem disposto. Trabalhador. Não gozou dessa benesse. Não gozou do prazer de agasalhar. De matar a fome. De passar uma noite em claro zelando por um filho doente para, ao amanhecer, receber um sorriso de gratidão impagável. De acompanhar o rico mundo de um ser que está em formação todo o tempo, o tempo todo. Ainda assim, me fez e faz falta. Pai faz falta.
Pai tem e precisa usar do seu poder para semear valores verdadeiros. Para ensinar a caridade e desestimular o consumismo banal. Pai tem que orientar suas crias a se defender do mundo sem ter que arrastá-los pela mão a vida inteira. Pai é para encorajar os filhos a se tornarem autônomos. Para cuidar da higiene interna dos seus filhos. Mostrar-lhes que eles já vem prontos e não precisam de estímulos externos para serem aceitos e bem quistos. Precisam ser apenas quem e o que são. Pai é para estimular a verdade, muito embora saiba que ,muitas vezes, dizer a verdade dói. Pai é para incentivar a autoconfiança. Para aumentar a autoestima. Para respeitar o direito a alegria e a tristeza de seus filhos. É dever do pai dar mais que instrução. Dotá-los de armas contra a exclusão, o preconceito. Pai é transitar na mais completa dualidade humana. Ser duro e terno. Ser bom e exigente. Ser flexível sem "dar mole". Encorajar, mesmo que tenha medo do filho se esborrachar.
Pai tem medo. Medo de não dar conta. De não estar pronto para as demandas. De não ser competente na formação dos indivíduos que pôs no mundo. De falhar na comunicação. De se deixar corromper emocionalmente. Isto é o que faz do ser pai algo de tão grande fascínio. Fico feliz de poder estar vivo hoje, neste momento do mundo, onde muitos tabus se quebraram, e poder não ter vergonha de vir a público externar a minha felicidade.
Aos pais, eu peço que não percam a oportunidade de desfrutar desta sublime arte. Aos filhos, principalmente os meninos, que não exijam eficiência máxima desta figura emblemática. Pais são homens, falíveis, suscetíveis ao erro e que estão, constantemente, aprendendo nesta troca que é conviver com vocês.

domingo, 2 de agosto de 2009

À VONTADE (do futebol ao samba)


Há tempos que eu quero escrever sobre esta questão. Nosso acanhamento nordestino. Nossa dificuldade em fazer frente ao sudeste do Brasil, mais especificamente Rio e São Paulo. Parece algo vinculado à baixa autoestima. Isto se dá no campo dos negócios, no campo das ciências, no campo cultural, no campo dos esportes.
Eu muito embora, ainda atue como um homem de negócios, sou apaixonado por futebol e por samba e dentro destes, talvez, eu encontre as maiores evidencias do que quero ilustrar.
Mesmo quando eu era criança, ficava irritado com os times daqui da Bahia, meu Bahia e mesmo o outro, pois a rivalidade pra mim só vale localmente, com seus esquemas tímidos quando saíam para jogar fora da nossa região. Assisti muitas partidas onde tínhamos um time competitivo e perdemos, uma grande maioria de jogos, pelo medo de se portar como “gente” grande. O Esporte Clube Bahia, nos anos setenta e oitenta, sempre conseguia montar times com bom elenco, diferente da sua situação neste novo século onde cada ano o quadro é pior que o antecessor, mas que sempre que se defrontava com os chamados grandes do futebol brasileiro, se revestia de um humildade excessiva, de esquema táticos que de tão defensivos já iam para campo encurralados, naturalmente fadados à derrota. Faço uma ressalva para, o time do Bahia de 1988/9, capitaneado pela sutil elegância de Bobô, este sim um sujeito arrojado, que peitou a todos e chegou onde chegou. Historicamente, fala-se muito do time de 1959, mas este eu não ainda não era nascido.
No campo da música, vou me deter ao samba, que é onde transito, logo, excetue-se deste contexto os então poderosos do Axé, tem uma coisa que tem mexido comigo desde o dia em que fui a um show de uma boa cantora local, num pequeno teatro de Salvador, e me deparei com um espetáculo que tinha tudo para ser excelente, mas que não o foi por duas razões: o público presente era incipiente e a cantora parecia sentindo-se fora do seu habitat. A sensação com que eu saí era de que o público de samba de Salvador, que é muito grande, haja vista o crescimento “astronômico” dos blocos de samba no Carnaval, não se acha digno de frequentar e introduzir o nosso mais genuíno produto musical nos teatros. Durante alguns meses, fiquei pensando sobre esta questão. Sobre o que nos inibe. Não cheguei a uma conclusão que não seja este senso de inadequação provocado pela nossa baixa autoestima. É como se o samba que é gênero maior, cuja a base de sua existência foi construída aqui, graças a nossa ancestralidade, não tivesse espaço, como grande espetáculo que é, nos palcos “nobres” desta cidade.
Acolhemos, comparecemos, pagamos caro para assistir atrações do “sul maravilha” , expressão pela qual tenho verdadeira ojeriza, mas não nos sentimos à vontade, de pagar preços módicos para prestigiar ao samba local, quanto mais para promover eventos. Quando falo de samba não estou me referindo a este movimento de pagode, de letras chulas, pornográficas e harmonia paupérrima. Posso e tenho propriedade para elencar uma série de compositores (as) que sabem compor e fazer sambas, que nada ficam devendo aos que nós “importamos”, que não sobressaem graças a uma mídia interesseira a serviço das grandes companhias e do dinheiro fácil.
Penso que está na hora de entendermos que quando um cálice está pela metade, ele não está meio vazio. Ao contrário, se a gente conseguir perceber que ele está meio cheio e que esta metade contém algo de qualidade, independente de quantidade, começaremos a rever esta postura que vimos adotando secularmente. Somos imensamente duros e exigentes com os nossos e altamente condescendentes com os que vem de fora. Poderia até fazer ilustrações diversas sobre isso, mas não me deterei. O objetivo é que comecemos a rever estas questões. Que valorizemos aquilo que temos, elogiando criticamente, valorizando a nossa herança cultural, que é sem dúvida a mais original, não entregá-la de bandeja. Acreditemos mais em nós mesmos.
Durante mais de um século,temos nascido aqui e vamos crescer na terra dos outro, o samba é só um exemplo,jogadores de futebol extremamente talentosos, só tiveram seu trabalho reconhecido quando saíram daqui. Alguma coisa está fora de ordem. Somos a terra da felicidade.Felicidade pra quem?
Só com autoestima alta, com empreendimento, torcendo pelo sucesso uns dos outros, apoiando-nos, que seremos realmente um povo melhor. Chega de repetir os mesmos círculos.Nossa vocação é ser feliz e ajudar o nosso igual, aquele que está ao nosso entorno, a sê-lo.