domingo, 16 de março de 2014

FURACÃO


 















Pode-se dizer que o furacão castigou. Chegou avassalador, destruindo alicerces e verdades há tempos estabelecidas. Pelo menos três morreram, a rigidez, a resistência e o medo da entrega. Não foi possível desviar. Ventos em alta velocidade o trouxeram e quando se viu, ele havia arrancado árvores não frutíferas e semeado novas sementes, esperança, desejo, liberdade.

O furacão destruiu sentimentos confinados em certeza e desalojou a luxuosa veracidade, deixando milhares de frases prontas e meias verdade confinadas sem ter do que se alimentar.

A faixa de terra onde os alicerces estavam fincados ficou totalmente coberta de água, sofrera enchentes até a altura dos joelhos, no sábado. Chuvas fortes continuaram a cair no domingo, inundando tudo de descoberta, graça e atração.

A tempestade quando perdeu um pouco de força, já começava a dar sinais de fertilidade. Em desastre completo, o medo retirou-se, e toda a cidade dita dura, estruturada em bocas de concreto, foi totalmente destruída, enquanto a natureza clamava por festa e voo.

Voaram os telhados de zinco, a musa girava impetuosamente nas ruas de mãos dadas com a alegria. Duas pessoas morreram de amor, na cidade portuária, quando um tanque de desejo inflamou-se e os consumiu em chama e ardência. O prefeito não soube disso. Desmoronamentos, causados pela explosão, duraram dez dias e estas pessoas se possuíram com a força dos tornados.

Poucos noticiaram, nenhum especialista foi capaz de diagnosticar sua intensidade, mas autoridades de outros planos do universo determinaram a saída dos turistas e consideram a retirada de toda interferência para que o fenômeno tomasse lugar e levasse consigo tudo que não mais servia...

Os dias de reconstrução ainda estão por começar...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

UM ANO DO LANÇAMENTO DO CD ESSÊNCIA


Há duas semanas, eu estava em Salvador, por volta das sete horas da manhã, quando meu irmão me liga pra dizer que minha música estava tocando, naquele momento, na Rádio Educadora. Eu disse para ele que eu tinha ouvido e falei do mágico de acordar naquele instante e da emoção que eu estava sentindo. Tinha ido a Salvador desmontar o apartamento em que morava e uma incômoda melancolia me acometia por ter que me desfazer daquele que foi meu ninho por quinze anos e que me vinculava, ou permitia voltar, de forma recorrente, para a cidade que eu amo, e que tive de deixar por força do trabalho.

Ouvir “Gratidão” tocando na rádio, naquele instante, ressignificou tudo que eu estava sentindo. Era o universo de alguma forma me sinalizando que para além das relações de afeto cujos elos não irão se desfazer, agora eu tinha também me vinculado pela música.

Esta introdução é importante porque ela ilustra bem a importância que passou a representar ter produzido este que é o meu primeiro CD. Essência, este é o nome, completa uma ano de lançado me proporcionando até hoje surpresas, alegrias e reconhecimentos dos mais improváveis. Não que ele tenha caído nas graças de nenhum crítico de música famoso, nenhum produtor ou algo semelhante. Não fiz nenhum movimento pra isso, diga-se de passagem. Não tinha esta finalidade. Aliás, não tinha finalidade outra a não ser agradar a mim.

O fato é que de modo surpreendente, muito mais que isso, Essência me deu a oportunidade de conhecer valores que Salvador tem, que não deixam nada a dever pela competência, pela qualidade do trabalho, pela criatividade e pelo senso de coletividade a nenhum deste centros produtores de música. Graças a estas pessoas o resultado é um trabalho que tem agrado não só aos amigos, mas a gente que eu nunca vi, que nem sabia que eu compunha e gente que conhece e gosta de música, mas que nem imagina que na Bahia existe uma pluralidade maior do que mostra a mídia.

Essência tem sotaque baiano, tem cor local e tem a assinatura de gente boa, que se sabe boa, mas que ainda não tem a visibilidade proporcional a sua qualidade. A cada vez que apresento este trabalho fora do meus círculos naturais de conhecimento, nas plagas novas por onde tenho andado, os comentários são os melhores sobre arranjos, sobre execuções dos músicos, sobre o belo trabalho gráfico. E eu confesso que sinto um orgulho muito grande.

Pode Essência não ser um CD primoroso, pode não surpreender ao povo ávido pelo boom de novidades efêmeras, pode não ter a pujança das grandes produções, mas Essência é honesto, feito por gente honesta com sentimentos, vontade e trabalho para aqueles que ainda param para escutar. Não soa pretensioso, nem tão pouco de consumo fácil. Ninguém, entretanto, poderá dizê-lo previsível.

Fecho este texto, cujo fim é celebrar, agradecendo a todas as pessoas que de alguma forma contribuíram para que conseguíssemos parir este filho, que hoje completa um ano, do qual somos todos pais e responsáveis e que, de forma muito competente, fizeram com que meu samba vencesse a barreira do anonimato, tocando na rádio e contribuindo humildemente para ajudar na repaginação da música que ora se produz na Bahia.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

NEGRO DRAMA (Breve reflexão sobre o Dia da Consciência Negra)


Eu tenho visto circulando uma frase atribuída ao ator norte americano Morgan Freeman que diz que o racismo desaparecerá no dia em que nos preocuparmos com a consciência humana. Dito assim por um homem  negro, em tempos de culto a celebridades, parece pertinente e simples. Só que não.

A realidade é muito mais complexa e dolorida. Existem muitos estereótipos entranhados na sociedade, em mim, em você e eles afetam a sua vida e de muitas das pessoas de forma inimaginável. No caso do Brasil, de uma maioria predominantemente negra, de forma irremediavelmente dura.

Tomar consciência perpassa por uma caminho muito longo e árdua luta, que não é nova, e precisa ser retomada todos os dias. O caminho da mudança de mentalidade, da quebra dos lugares-comuns, do fim da exploração e de toda sorte de intolerância não reside em deixarmos de falar no assunto.  Os traços remanescentes de uma socieda escravagista, supostamente extinta, ainda justificam o cerceio de direitos e a remoção de oportunidades da maior parcela da população. 

Tomar consciência passa por colocar termo numa cultura de hierarquização das pessoas por características biológicas tais como cor da pele, textura do cabelo e tamanho do nariz. Tomar consciência é compreender que não se pode relegar pessoas a subgênero, retirando-lhes oportunidades e igualdade de direitos na educação e no trabalho. Tomar consciência passa por compreender que existe uma série de injustiças históricas a se reparar.

Esta é a leitura que faço desta data. Hoje é um dia de reflexão De repensar e de compreender que não se adquire consciência movido por ideias de senso comum veiculadas de forma aleatória, por uma mídia sem compromisso, sem embasamento histórico e, menos ainda, sem uma análise contextualizada. Isto é raso para uma questão séria que exclui, limita e dizima muitas pessoas todos os dias em pleno século XXI.

Desenvolver a consciência humana passa por reconhecer que o preconceito existe e que urgimos em desaprendê-lo. O resto é frase de efeito.
Santos, 20 de novembro de 2013.