domingo, 22 de fevereiro de 2009

PELOURINHO, MENTIRAS DOS MOMOS

Pelourinho, Mentiras dos Momos
A proclamada diversificação cultural do carnaval de Salvador faria sentido se tivesse sido dada a todas as vertentes da nossa música a mesma oportunidade de divulgação, o mesmo trato de respeito e investimento. O sabido descaso com que a atual administração tem tratado o Pelourinho (ironicamente elevado agora à condição de patrimônio imaterial...), estendeu-se de forma triste e trágica ao carnaval de rua que ali se vinha realizando com sucesso na última década... Era o Centro Histórico o refúgio de foliões dos anos 70, início dos 80, talvez, que, como eu, assistiram com tristeza a descaracterização de tudo que aprenderam a chamar de carnaval... Haviam deixado este consolo pra gente... ali era possível pular carnaval, ouvir carnaval sem o desconforto dos gritos proferidos pelos egos de cada dono de trio, numa manifestação inversamente contrária a tudo que me pareceu ter inspirado a criação de Dodô E Osmar. No Pelourinho, podíamos assistir sem camarotes, o desfile de carnavalescos de verdade, criativos nas suas fantasias, umas diferentes das outras, sem a monotonia visual dos abadás feitos em série e que apenas igualizam e/ou identificam gente de uma classe privilegiada que pode pagar pra ocupar o centro das ruas... No Pelourinho, o som nos acordava a alma carnavalesca que repousara à esta espera os outros 361 dias do ano... Som de carnaval legítimo e não estou saudosisticamente me referindo às marchinhas de outrora, mas, a toda “atualidade” do quanto Caetano e Morais construíram de belo para As nossas festas, para o “nosso” trio. A Praça Castro Alves já não era mais nossa, tínhamos, porém, as ruas do Pelô. E lá nos reencontrávamos, nos re-identificávamos, nos regozijávamos pelo que nos tinha restado de real, um oásis dentro do caos em que se transformara o carnaval da Bahia pros da minha geração de paladar musical mais apurado, ouvidos mais sensíveis, talvez, e menores ambições mercantilistas...
Reencontrei um Pelourinho destroçado, relegado ao abandono; um Pelourinho deserto dos foliões de outrora; raras bandinhas tristes na sua aparente decadência , desfilando pra meia dúzia de pessoas daquela área da cidade que talvez não pudessem ter saído dali... A internet não nos fornece a programação do Pelô com a clareza necessária. Fala-se da Praça Municipal, mas omite-se o que acontecerá nas praças internas, reais cenários dos grandes ou melhores shows. Pouca ou quase nenhuma divulgação... informações equívocas quanto à hora das apresentações... Lá dentro tudo muito descuidado, afinal ali voltou a ter tratamento de senzala, e a atual Casa Grande localiza-se no circuito Barra-Ondina... com direito a litros de água gastos para refrescar os foliões-vips e à visita diária da Limpurb. Muito triste, tudo isto. Pobres foliões do meu tempo, o que faremos agora? Sem nunca ter sido tão tradicionalista, louvo o feito do prefeito de Ouro Preto, impedindo que por lá chegassem os trios, bairrista que sempre fui, orgulhosa soteropolitana, envaideço-me mais do carnaval de Recife que honrou e preservou, deus sabe a que preço, as suas tradições carnavalescas... E pensando no pobre Pelourinho. Carlista que nunca fui, tenho saudade do Cabeça Branca...

Que deixem, pois de demagogia com esta de diversificação cultural no carnaval de Salvador... Acho, aliás, que num tempo em que tanto se troca o nome das coisas... e até já se pensou em transformar esta festa de 7dias em data fixa num calendário secular de respeito à quaresma (tudo em prol do mercenário espírito das elites carnavalescas) creio que devessem mesmo lhes trocar o nome... Isto já não é carnaval, mas um gigante festival de verão, com um pouco de tudo que se faz e se toca o ano todo e só um pouquinho de nada de realmente carnavalesco... No palco principal estarão sempre os mesmos... os que não tem concentração para ler, os que lhe manda beijar na boca, indiscriminadamente, numa campanha na contramão da outra da Secretaria de Saúde do Estado. No palco principal estarão só estes... e os palcos secundários desaparecerão aos poucos...como aconteceu com o Pelourinho d´agente...

Não se pode deixar de elogiar o bom trabalho de pesquisa da decoração de Euro Pires e sua equipe que contrastavam com todo o resto do tratamento dado ao local e chegavam a soar como desperdício de talento para tão pouco investimento de público. Vale também ressaltar a presença heróica de Waltinho Queiroz cantando num daqueles palcos; convém, com certeza, agradecer a beleza e a coragem do grupo “O POVO PEDIU” cantando lindamente pelos becos e em torno de uma praça do Terreiro de Jesus, onde as luzes foram apagadas antes de uma da manhã... quem sabe poupando energia para compensar o gasto do circuito dos camarotes de granfinos...

Há um tempo atrás, quando descobri todas as possibilidades que me oferecia o Centro Histórico em tempo de carnaval, amanheci com vontade de escrever uma crônica que se intitularia Obrigada, Pelourinho... e quase fiz planos de no ano seguinte me hospedar num hotel da área onde pudesse vivenciar aquele clima sob o reinado do MOMO... Volvidos 4 anos, recolho-me tristemente a condição dos sem-terra, sem-teto e sem chão no carnaval da Bahia... Mas sinto que ainda tenho tribo, que ainda tenho bloco... e graças a Um HÁBEAS COPOS... porque O POVO PEDIU, posso ainda voltar, CHEGANDO BONITO... porque PARAOANO, com certeza, SAI MILHÓ...

Texto: Ângela Chaves, bacharela em Direito (UFBA-73), professora de Inglês e compositora de MPB
Fotos: Vera Milliotti

Axé, Anos 80!

Recebi um convite da Fundação Cultural da Secretaria de Cultura para que fizesse a curadoria de um trio temático sobre os anos 80 do Axé. Declinei conscientemente, pois só um louco assumiria mais trabalho. Porém, o inconsciente trabalhava a seu favor e contra as minhas primeiras intenções.
Neste dia quase não dormi com as imagens, sons e sensações que me invadiram. Me vi, em plena folia, brincando só por brincar atrás do trio de Armandinho, adorando Moraes sendo o carnaval em cada esquina e defendendo da multidão que se aproximava, as meninas que estavam no banquinho que eu e meus amigos do Largo Dois de Julho colocávamos na Avenida Sete. Me vi também em pleno Farol da Barra, no projeto “O Sol se põe no Farol”, ouvindo “Magia” de Luis Caldas e beijando as primeiras bocas encantadas da minha terra.
Algo começava a acontecer musicalmente ao meu redor durante o ano e no Carnaval. Vi Ademar e a sua Banda Furta-Cor tocar valsa para acalmar os ânimos quando o “pau cantava” (costume da época) e o efeito era tão forte que até os ladrões se abraçavam na avenida. Vi uma transformação a caminho no Traz A Massa, com o trio transistorizado do Chiclete com Banana, vi eu e meu amor “da hora”, indo de mãos dadas para a Barra de quinta a sábado, “esperar trio” (assim se formou esse circuito e por isso se chama “alternativo”, pois o carnaval era basicamente de domingo a terça no Centro), vi e ouvi Sarajane gravar Brown (Vale), uma sonoridade já moderna, e ir parar no Chacrinha - abençoado seja para a música baiana dos anos 80.
No meio da década, ingressei no Rádio e vi que era uma ferramenta importante de toda a transformação que estava acontecendo. Conheci a WR (iniciais de Wesley Rangel), o forno de onde se produziam aquelas músicas na Rua Manoel Barreto, na Graça. Gravei meus primeiros comerciais e observava atento, nos corredores, uma tribo de compositores, cantores, impostores, amores, dores e sabores do ninho de onde “acordes verdes” iriam ecoar na avenida e na história da música baiana.
Axé era isso. Algo que se formava. Era Brown criando e procriando, Gerônimo com uma musicalidade sensacional e “Eu Sou Negão” já denunciando uma dificuldade de convivência entre a democracia dos espaços na rua. Compositores afros brotando, como Tonho Matéria, alguns de pura poesia (como ele próprio) e outros das páginas de livros de histórias do Egito, nos Festivais do Olodum, Ilê, Apaches, Badauê, Malê, Araketu, Muzenza e outros que não sobreviveram aos próprios anos 80. Márcia Short e a Banda Mel cantando no palco armado em São Raimundo, Crença e Fé (vou dar a volta no mundo, eu vou...) do então desconhecido Beto Jamaica, e a formação anterior com Book Johnny consagrou a gíria que até bem pouco era usada: “Já fui, Banda Mel”, por uma canção ao vivo que tocava na rádio. Essa massa de diversidade desfilava pelo Carnaval da Bahia e a gente via tudo, pela tv também. As transmissões eram embrionárias, mas já se preocupavam em mostrar essa “zorra toda”.
Tudo era muito romântico e as entidades dependiam quase que inteiramente do Estado para prover seus desfiles. Os artistas não moravam aqui, pois não tinham como sobreviver o resto do ano. O talento artístico, a intensa produção musical e a absorção e divulgação destes trabalhos pelo rádio baiano, que tinha suas programações repletas de música internacional , deflagrou o olhar sobre a regionalização da música. A partir daí, tudo o que aqui se fazia, tinha eco, reverberação junto ao público. Criava-se uma indústria musical com raízes intrincadas na festa de Momo.
Surgiram os primeiros blocos, a profissionalização, a independência econômica de alguns artistas que agora podiam sair sem depender de financiamento do Estado, a geração de emprego e renda, um avanço da cultura do modelo carnavalesco para todo o Brasil, carreiras respeitadas no Brasil e no mundo, enfim, surgiu o progresso e o desenvolvimento, que tem como princípio básico, na maioria das situações que conhecemos, destituir de poesia o nosso dia-a-dia.
Depois desta longa viagem em uma noite de uma vida, resolvi aceitar a curadoria deste trio. A primeira dificuldade é que sabia que o tempo era escasso e alguns já estavam ocupados. Liguei para Ademar e perguntei se topava remontar a Furta-Cor e dirigir musicalmente os trabalhos – adorou! Daí vieram Márcia Short, simbolizando as bandas, Sarajane, a geração e Tonho Matéria, os compositores e os afro. Criei o conceito de “Baianidade Psicodélica” para a estética do projeto e convidei a equipe. Pronto, o louco já estava mergulhado de corpo e alma no Trio Axé Anos 80. Faltava ainda o provocador que eu gostaria de ter no trio, desconstruindo o modelo do desfile e dando um certo tom de humor. Chacrinha ! Lembrei ! E agora ? Que ator poderia fazê-lo ? Apresento-lhes Renato Fechine, meu amigo e Chacrinha perfeito.
O time jamais estará completo, pois são muitos os artistas e contribuições que fizeram dos anos 80, o início de tudo, repleto de criatividade. Falta principal de Luis Caldas que não pode participar por estar lançando um novo projeto em sua carreira e que mostrará também no Carnaval. Mas me disse: - Déo (coisas de Luis...), eu não posso estar no projeto, mas é tão bom que vou fugir um dia para estar com vocês... Tomara que consiga !
Procuramos, todos nós, artisticamente construir um espetáculo que reverenciasse a vida de tantos que fizeram e curtiram o axé do axé, que ainda nem era axé. Em dois desfiles, domingo na Barra (22:30 h) e terça na Avenida (12 h) vamos reviver um repertório de sucessos que embalaram nossos pulos e beijos, o som das festas de largo, parar para tocar valsa se houver briga e fazer você botar seu bloco na rua, sem pecado e sem juízo.
Durante os ensaios, nossas reuniões e as conversas que tive com algumas pessoas sobre a força desse encontro, percebi que levaremos para as ruas mais do que nós mesmos. Levaremos além de história, a vida de milhares de pessoas que sorriem ou derramam uma lágrima só de lembrar de tudo o que vivemos. Gente com gente no coração.
Agora a nave mãe vai decolar.
Até a avenida, gente boa.

André Simões

Andrè Simões é comunicador, jornalista, radialista, terapeuta em formação e um cara amigo pra c...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Feliz Recomeço



















"Tem gente que machuca os outros
tem gente que não sabe amar
mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
confie em si mesmo
quem acredita sempre alcança"(Mais uma vez, Renato Russo)


Faltam dois dias para acabar o ano da graça de 2008. Este ano é, sem dúvida, um ano que vai ficar marcado para sempre em minha vida. Falo de vida como um fenômeno longo e passivo de gestão, mas a gente sabe que esta pode acabar daqui a instantes. Como diz meu compositor preferido, ”tudo pode estar por um segundo”. Mas retomando a questão, 2008 ficará marcado, pelo tempo que eu viver, por uma simples questão: foi o ano em que meu inconsciente fez contato com a finitude. Não falo de qualquer finitude, falo da minha própria. Deparei-me com a morte e vi suscitar em mim todos os medos a que um ser humano está exposto quando se vê diante do fim. É muito ruim a experiência de ver seus sonhos e projetos se esvaindo sem que você possa fazer algo e, pior que isso, no meu caso, encontrava-me totalmente só, o que aumentou, imensamente, o terror. A sensação de abandono que se apoderou de mim é indescritível. Num grande esforço, saí atrás de socorro. Socorrido por minhas amigas vizinhas, sobrevivi. E, para minha temporária tranqüilidade, não enfartei. Estava “apenas” vivendo um quadro de estafa e depressão. Ufa!

Por que fiz este preâmbulo? Para ressaltar o quão vulneráveis somos? Não. A verdade é que todo ser humano, quando se vê diante desta perspectiva, reascende em si os mais primitivos questionamentos: Quem sou? De onde eu vim? Que estou fazendo aqui? E, talvez, o mais aterrador: Para onde vou? Imagino que daí provém a religiosidade de cada sujeito. Favor não confundir religiosidade com religião. Religiosidade está associada a esta busca de respostas para estes aspectos cosmo-filosóficos do ser humano. O certo é que quando se toma um choque desta dimensão temos, pelo menos, duas escolhas: endurecer e sair desenfreadamente atrás do gozo físico-material ou reavivar conceitos como humildade, simplicidade e amor ao próximo. A escolha está diretamente ligada ao grau de conhecimento que temos de nós mesmos. Por pior que seja a situação, algumas escolhas sabemos não ser capazes de fazer. Em ambas as situações o elemento só se libertará da angústia se estiver inteiro na sua opção.
Estar inteiro, por seu turno, vai implicar em decidir, a partir do que entendemos por vida, o que é melhor: crer que somos animais cuja morte encerra o ciclo transformando-nos em carne podre ou que somos seres providos de espírito em constante evolução e aprendizado. Minhas atuais reflexões me levam a tender para esta segunda proposta. Penso que seria extremamente inútil, despender tanta energia para virar comida de minhocas. Não posso ainda fundamentar minha crença, mas a religiosidade em mim diz que viver é um processo. E que mesmo não estando preparado para a morte, preciso construir um aprendizado, se não para aceitá-la, pelo menos para estar mais sábio para viver um próximo ciclo.

É neste contexto que me preparo para 2009. Mais desapegado. Menos sábio e com mais perguntas do que nunca. Em 2009, necessito conhecer-me e me tornar consciente de quem sou. Quero que meus movimentos surjam sempre de dentro pra fora. Não quero modismo. Quero aprimorar a técnica de ouvir mais, consequentemente, falar menos e o essencial. Aceitar melhor minhas imperfeições e todas as dualidades do meu ser. Quero não sentir culpa. Se eu estou em fase de aprendizado, quero ter o direito de errar. Quero exercer menos controle para ter mais tempo de trocar experiências. Quero explorar meus talentos. Vivenciar encontros construtivos e estabelecer laços autênticos. Talvez compre um carro zero. Um apartamento com vista pro mar. Talvez case de novo. Talvez escreva um livro. Talvez realize aquela sonhada viagem a Paris. Mas com certeza, serei mais condescendente comigo e com o outro. Criarei menos expectativas a cerca das pessoas. Estarei com meus canais mais abertos para captar os sinais e insights que surgem a todo instante. Voltarei a ler mais. Aceitarei a chuva como aceito o sol e não deixarei que ninguém seja responsável pelo meu humor. Aproveitarei este marco cronológico para marcar um novo encontro comigo mesmo.