sábado, 21 de novembro de 2009

A DIFICIL ARTE DE ARTE FAZER EM SOTERÓPPOLIS



(...)Gente do nordeste, do norte aqui no sudeste
Batalhando nesse mundaréu de mundo que só cresce
Só carece
Venha até São Paulo relaxar ficar relax
Tire um xérox, admire um triplex
Venha até São Paulo viver à beira do stress
Fuligem, catarro, assaltos no dia dez
(Venha Até São Paulo - Itamar Assumpção)


Tenho lido e ouvido muitas lamentações, todas relativamente pertinentes, sobre a dificuldade de fazer arte na Bahia, sobretudo em SALVADOR. No meu ponto de vista, tem uma questão básica que acomete a Bahia, como todo, enquanto consumidor de artes. A Bahia não tem público formado para recepcionar, compreender, interagir e valorizar o trabalho nas artes em geral. Há pelo menos 30 anos que esta crise está instaurada. Mesmos as grandes montagens externas são frequentadas, geralmente, por pessoas que vão ao evento mais pela badalação, ostentação de poder aquisitivo do que pelo valor e apelo cultural do que está sendo apresentado. Vale ressaltar, e minha acidez é proposital, que mesmo nestas ocasiões não se isentam de apresentar uma duvidosa carteira de estudante.


Muitos dos meus amigos queixosos culpam o Estado. Eu tenho uma visão um pouco diferente. Penso que, do mesmo modo que a família não pode atribuir integralmente a formação do sujeito à escola, como se faz hoje, não podemos atribuir ao Estado responsabilidade integral por este estado de coisas. Acho, e estou falando como cidadão comum, que existe um visível esforço do governo sim na promoção e difusão cultural, mas também acho que não existe apoio empresarial forte e midiático de outras instituições como vejo em São Paulo e BH, por exemplo. Talvez este seja o maior embargo. Afinal, por que os teatros viram bingo? Por que os cinemas viram igrejas evangélicas? Por que os casarões viram empreendimentos estrangeiros?

Neste ponto, a Bahia urge de um processo de reeducação. O Rio, ainda nem tanto quanto nós, segue o mesmo vexatório caminho. Aqui, a cada dia, se restringem os lugares. Não há espaço para criação diversa e não há retorno quer financeiro, quer de reconhecimento porque não há formação de público e, consequentemente, advém daí o desinteresse do patrocinador e da mídia que querem, de certo modo equivocadamente, retorno e visibilidade instantânea. Este é o circuito vicioso.

As peças que vou assistir em Salvador tem sempre as mesmas pessoas, as exposições, os eventos musicais mais elaborados assim também se processam. Recentemente, fui a alguns espetáculos onde nem 50% das cadeiras estavam ocupadas. A gente sofre pelo artista, pela arte e pelo público baiano que se furta de prestigiar induzido que é, o tempo todo e massivamente, para uma única manifestação.

Nada é tão novo, mas se acentua cada dia mais nos tempos atuais. De tão crônico, talvez não perpasse só pelas iniciativas institucionais, mas e principalmente, na minha modesta opinião, pelo desinteresse sociocultural coletivo que acomete as pessoas. Parece que pensar, refletir, debater nunca está na pauta do dia desta sociedade. A grande massa quer encontrar mastigado para ter o trabalho apenas de engolir. Criticar, bater, desqualificar, destruir, desumanizar demandam mínimo esforço de massa cinzenta e sempre vai haver um pseudo-religioso, um mau repórter, um falso crítico, um mau companheiro de profissão, um jornal interesseiro para fazê-lo em nome do povo e um empresário ganancioso, em busca de retorno rápido, para bancá-los.

Não que isso sirva de consolo, mas conheço muita gente, que desenvolve arte com qualidade, vivendo desta angústia em todas as áreas. O caminho é resistir. Não adianta caçar bruxas, pois elas renascem. Unir-se. Pensar global e coletivamente.
Até porque, há muito, São Paulo não comporta mais tanta gente...


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

EU, PROFESSOR

Dedico este texto a Profª Ana Maria, minha inesquecível professora de "Comunicação e Expressão" da 6ª a 8ª,  que lecionava no Complexo Escolar Evaristo da Veiga, lá pelo meado dos 70's, que foi quem me ensinou o amor pela Língua Pátria. Talvez, e muito provavelmente, ela não saiba, mas a amo, até hoje, por isso.
"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais..." - Rubem Alves




Minha mãe foi a primeira professora minha. De cima do rigor que possuía , mas com muita propriedade, apesar, de na época, ter baixa escolaridade, apenas o quarto ano primário, me ensinou, aos cinco anos, a ler, escrever, as quatro operações básicas e a redigir, coisas que a maioria das escolas públicas não consegue fazer em anos de ensino fundamental. Cheguei na escola “voando”, tirando notas 9 e 10 em tudo, enchendo minha mãe de vaidade. Abro parênteses: acho que no fundo, no fundo, a grande gratificação do professor é ver seu aluno mostrando que assimilou aquele conhecimento que com ele foi compartilhado. Na atual conjuntura talvez a única.


A minha primeira professora “formal” chamava-se Eufrásia, de cima da “imensa sabedoria" dos meus sete anos, era a primeira mulher pela qual eu me apaixonaria. Lógico que nem tinha clareza do que era isso. Mas ela fora meu primeiro amor. Me empenhava, inconscientemente, para dar o meu melhor, para impressioná-la. Para ganhar sua atenção. Seu olhar terno e condescendente comigo. Meu coração batia forte quando me fazia qualquer pergunta e ficava a ponto de sair pela boca quando, ao acertar, recebia um elogio carinhoso. Aos 46, Eufrásia ainda está viva em mim. Fazia o que gostava. Era terna. Era consciente do seu papel.Tinha nosso respeito e respeitava-nos. Diga-se de passagem, tratavam-se de meninos paupérrimos da Roça da Sabina, do Calabar e da Rua do Amazonas logradouros das cercanias do Chame-Chame e da Barra Avenida.

Hoje acordei com Eufrásia na cabeça, é dia do professor, e ela veio me visitar a memória para me lembrar que eu também escolhi ser professor. Escolhi ser professor já numa época em que educação virou comércio. Instrumento de hierarquização social. Quem tem poder aquisitivo adquire conhecimento e competitividade. Quem não tem, vai ficar semi-alfabetizado para dar continuidade a desigualdade institucional deste país. Escolhi ser professor onde, a duras penas, o ensino público tenta se sustentar em estatísticas, quando na realidade forma legiões de analfabetos funcionais. Escolhi ser professor numa época em que os pais jogam sua obrigação, de formador das pessoas, a quem deu vida, para escola, gerando um ÔNUS imensurável para escola pública que não realiza bem nem seu papel primordial, enquanto instituição de ensino, quanto mais o de assumir tantos papéis aos quais, conseqüentemente, não tem como corresponder. Escolhi ser professor numa época em que esta profissão não é compreendida nem pelo estado, nem pela sociedade que não reconhece que o desenvolvimento do talento, a prosperidade, a inclusão, a formação profissional e, principalmente, humana passam pela sala de aula. Escolhi ser professor numa época em que a maioria dos meus anseios de educador não podem se realizar porque não me são dadas as condições mínimas de trabalho que perpassam não só por uma remuneração digna, mas sobretudo por estrutura plena para o exercício da profissão.

Neste dia do Professor, quero parabenizar meus colegas e muitos amigos que abraçam tão dura tarefa com afinco, disciplina e consciência do seu papel social.

Neste dia professor, quero propor o repensar deste quadro. Começo por , meu veemente repúdio aos parlamentares deste país que ainda não pensaram ou esboçaram um projeto a curto e médio prazo de recuperação da escola pública enquanto direito constitucional do povo brasileiro, principalmente o povo negro e o povo pobre. Sim, eu quero políticas públicas, ainda que atenuantes, mas eu quero poder ter a escola da minha infância, onde nunca pude colocar meus descendentes. Que forme jovens competitivos, capazes e detentores do mesmo conhecimento daqueles que tem acesso as escolas privadas.

Enquanto professor, se me dessem voz, pelo menos neste dia, só faria um pedido: Por favor, devolvam a minha escola pública de direito!


TELEANÁLISE (Coluna Malu Fontes do jornal A Tarde de 11 de outubro 2009

Eu já tinha postado antes um texto da doutoura Malu no meu blog. O primeiro sem sua anuência, mas cuja aprovação veio "a posteriore". Estou postando mais um, devida e previamente autorizado, com uma recomendação: "coloque meu twitter, para o caso de alguém querer me xingar, pois sempre tem: www.twitter.com/malufontes". Eu diria, se quiserem xingá-la, xinguem a mim também, pois concordo integralmente com os textos que ora posto.



"  PROVA NA CUECA E ABERRAÇÃO LOCAL












Diante da notícia de que mais de quatro milhões de estudantes de todo o Brasil seriam prejudicados e impedidos de realizar, no último final de semana, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), pelo fato de as provas terem sido vazadas, o raciocínio do telespectador e do leitor de informação tendia a ser óbvia: ladrões certamente muito bem informados, articulados, de posse de informações estratégicas e privilegiadas teriam conseguido furar o bloqueio de um esquema de segurança poderoso do Ministério da Educação nos locais de processamento das provas para conseguir surrupiar material tão valioso. O roubo provocou uma bola de neve na agenda não só dos 4,1 milhões de estudantes e suas famílias, mas principalmente no calendário de vestibulares de todas as universidades do país, sobretudo as públicas, uma vez que falar em vestibular quando associado a boa parte das faculdades privadas tende a soar hoje como piada.






No entanto, com o avanço das investigações policiais e da cobertura massiva do caso pela imprensa, o que se viu foram revelações inacreditáveis de tão toscas e primárias acerca do cenário e da modalidade da ação dos criminosos. No lugar de ladrões espertos e articulados que tentaram ganhar 500 mil reais vendendo as provas a jornalistas do jornal O Estado de S. Paulo, apareceram três patetas mais para ladrões de galinhas, tão limitados quanto uma porta. Para roubar a prova mais importante do país só precisaram enfiar umas folhas de papel na cueca e outras embaixo de um casaco, enquanto trabalhavam no espaço da gráfica onde eram impressas as provas. Saíram pela porta da frente tranquilamente.






CUECA - De tão limitados, tiveram a brilhante idéia de vender o produto do roubo justamente a raposas, jornalistas de um dos principais jornais do país, com quem pensavam que fariam a negociação da vida com sua galinha de ovos de ouro sob a forma de papel. A iniciativa dos trapalhões causou um prejuízo de mais de 34 milhões aos cofres públicos, pois todo o processo terá que ser refeito do zero. As imagens das câmeras que registraram o roubo, divulgadas nos telejornais da última terça-feira deixaram claro que, para fraudar um exame nacional de tamanha dimensão, não foram nem seriam necessários não mais que ladrões de galinhas de métodos mais que simplórios.






Não são os fraudadores que são espertos. A logística de segurança do processo é que era vergonhosa, permitindo toda a sorte de promiscuidade de circulação e troca de funções no local da impressão entre seguranças, faxineiros e que tais, todos com jeitão de contratados de véspera, na esquina, sem critério algum. Para fechar o caso com a marca da seriedade que caracteriza o comportamento nacional, a informação mais importante: nenhum dos cindo indiciados pelo roubo foi ou será preso.






Segundo o delegado responsável pelo caso, todos responderão a processo em liberdade, pois não é caso de prisão. Ah, não? Então, tá. Tudo não passou, portanto, de um grupelho de amadores querendo ganhar meio milhão fácil, mas logo se contentando com 10 mil, o valor cobrado ao ameaçar de morte a repórter do Estadão. O Brasil é muito esquisito quando o tema é prisão. Veja-se o caso envolvendo o pugilista Popó. Todos os acusados do crime foram soltos e a vítima foi presa, supostamente por ter contas do passado a acertar com a Justiça. Uma obra prima de ficção, onde até o nome de um dos policiais acusados pela vítima tem nome de tragicomédia que só a Bahia saberia produzir: Hamlet Robson Magalhães.






ABERRAÇÃO LOCAL - Na TV local, a nota máxima da dissonância e da decadência moral, ética e estética se materializou na tela em uma entrevista inclassificável exibida no programa Que Venha o Povo (TV Aratu), na edição de terça-feira. A repórter Analice Sales cometeu um dos maiores pecados já vistos no telejornalismo, na falta de uma palavra mais adequada para nominar o gênero televisivo que hoje se pratica na grade do meio dia. A intrépida repórter entrevistou, como se fosse a coisa natural do mundo, uma criança, uma menina de apenas seis anos de idade, sobre os detalhes sórdidos das abordagens sofridas por ela por parte de um pedófilo.






É inconcebível que uma emissora, uma concessão pública de radiodifusão produza e exiba uma entrevista em que uma jornalista pergunte a uma criança dessa idade qual o nome e o lugar do seu corpo onde o homem introduzia o dedo. Como se fosse pouco, diante da pronúncia titubeante, frágil, intimidada da menina, a repórter repetia reiterando a palavra: ‘na pititica’. Os limites éticos, diante de uma criança tão pequena e em circunstâncias tão abjetas, já podem ser ignorados a esse ponto? Uma coisa é denunciar e divulgar casos de pedofilia, outra, bem diferente, é uma jornalista entrevistar uma criança vítima desse tipo de crime pedindo-lhe detalhes do abuso que sofreu, estimulando-a a reviver o ato de violência sofrido.






Mesmo intramuros, psicólogos e psiquiatras tratam esse tipo de abordagem com todo o cuidado do mundo, pela delicadeza da estrutura psíquica infantil. Aqui, é apenas um ingrediente a mais no show de horrores que alimenta a guerra da audiência televisiva e ficará por isso mesmo. Em nome dessa lógica, há poucos dias foram exibidas, na mesma emissora, cenas nas quais um outro pedófilo, preso, apalpava e reapalva a genitália do repórter, que estimulava a continuidade, apostando nos dividendos da audiência. E viva o interesse público de informações desse quilate, pois. "



Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.


A ilustração foi introduzida por mim, haja vista a felicidade da imagem produzida pelo
Ilustrador do G1 que imaginou como teria sido a fórmula do invento (Foto: Ilustração/G1)